Casa de resgate de animais é alvo de ameaças em São Leopoldo

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   Eram 17h52 quando estacionei em frente à casa de paredes brancas e portão de barras de ferro clássicas dos anos 90… Ou quem sabe 80? Não perguntei na verdade. O sol, se pondo naquele instante,  tingia tudo de um vermelho abundante, prenunciando dias secos. O cenário era lindo; o relato que fui ouvir… nem tanto.
   Acompanhada de minha mãe, o elo entre eu e a dona da casa que estava prestes a conhecer, chamamos pelo nome da anfitriã uma vez, olhando por entre as barras. No momento que nossa voz se fez ouvida, o silêncio do final da tarde foi quebrado. Incontáveis latidos, cada vez mais altos, eram ouvidos. Foram segundos até que o pátio frontal da então pacata casa se tornasse uma confusão de latidos, pelos, patas e olhinhos de bolita nos encarando. 
   Seguida a comoção dos cachorros veio uma senhora, desbravando espaço por entre o mar de caninos ansiosos para alcançar a tranca da grade e nos permitir passagem. Não a conhecia. Imaginei se era a dona da casa e a pessoa com a qual viemos conversar. Minha mãe, com os braços ocupados com duas caixas cheias de roupas para doação, entrou primeiro e, após cumprimentar a mulher, deixou o peso na varanda. Informou o que era o conteúdo. Descobri aí, enquanto surpresa tirava meu celular para fotografar o que acreditava ser a maior quantidade de cachorros de rua que já tinha visto numa residência, que a responsável pela moradia não era quem nos acolheu instantes antes, mas sim outra senhora. Quando Adelaide aproximou-se, vindo do interior da casa ajeitando os cabelos grisalhos num rabo improvisado, notei os olhos gentis, as roupas simples e a feição preocupada e cuidadosa de quem aprendeu a escolher as palavras e com quem proferi-las. 
  Vejam bem, quando fui convidada para visitar o local não tinha ideia de praticamente nada. Não sabia que produziria esse texto (afinal, fazia muito - até anos - que algo não me motivava a escrever no formato reportagem ou seja lá o que esse texto pode se encaixar quando acabar de redigi-lo), não sabia o que acharia, nem o que iria ver. Minha mãe tinha apenas perguntado se eu poderia ajudar tirando algumas fotos, pois uma conhecida dela que resgata animais de rua estava passando por maus momentos, sendo acusada de maus tratos, e precisava urgentemente divulgar os bichinhos para adoção para diminuir a quantidade. As fotos também serviriam para provar que não havia maus tratos naquela casa. A ideia era enviar para o jornal local, já que eles toparam divulgar. Aceitei, claro.      Primeiramente queria ajudar os bichinhos e, em segundo lugar, porque senti que parecia estar acontecendo algum tipo de injustiça ali. Mas não podia julgar antes de realmente conhecer a situação. 
   Foi com curiosidade, então, que passei pelo batente da porta da casa, situada no bairro Cristo Rei, em São Leopoldo. Eram tantas informações aos meus cinco sentidos numa só vez que senti um soco no estômago. Para começar, instintivamente tinha me preparado psicologicamente para o choque olfativo - quem tem dois ou mais cachorros em casa sabe que é difícil controlar o cheiro, imagina ter uns 30? Em puro torpor, no entanto, percebi que a casa cheirava melhor do que a minha, ou a da maioria das pessoas. Mentalmente ergui uma sobrancelha; isso tinha tudo menos sinal de maus tratos. Aquela mulher deveria passar horas e horas limpando para que a casa ficasse habitável e até mesmo bem cheirosa. Falando em cheirosa… Pude sentir no ar um aroma distinto, cara de algo sendo preparado na cozinha. Apenas meia hora mais tarde descobri que o peculiar odor que me lembrava sopa provinha de uma panela gigante, em cima de um fogão a lenha, onde Adelaide preparava antes de chegarmos uma quantidade imensa de comida para os bichinhos, que ela alternava com ração premium (cara!!) durante o dia. 


   Já na primeira peça da casa, uma espécie de sala e quarto juntos (como num quitinete ou, como a nova geração ama chamar, “loft”), em meio à bagunça de incontáveis dogginhos ainda muito agitados com as visitantes inesperadas, varri meus olhos e inicialmente contei outros 6 cães deitados em camas preparadas sobre cadeiras ou no chão. Mais alguns deitavam sobre a cama de casal ao lado da porta, sob uma janela que deixava passar de forma sutil a claridade de final do dia. Estava tão surpresa com tudo, pensando que devia ter me informado melhor sobre a situação antes e curiosa sobre detalhes que ainda não sabia, que nem sequer pensei em ligar o flash da câmera. O que me deixou com uma série de fotos iniciais borradas de animaizinhos agitados querendo ver o que eu trazia nas mãos. 
   Enquanto me situava com o lugar, os muitos animais e racionalizava a melhor forma de tirar fotos considerando a situação, ouvi conversas abafadas de minha mãe e as habitantes da casa em outro cômodo lateral; percebi minha mãe reafirmando que vim fotografar para ajudar com a adoção e que era a filha dela. Acredito que isso ajudou a aliviar a tensão de uma pessoa estranha na casa e, também, deu à Adelaide a segurança para que me contasse com tristeza, ao decorrer da visita, tudo que estava passando nos últimos dias.
   Para quem não está familiarizado com esta bela cidade (isso pode ter sido irônico) que se situa na Grande Porto Alegre, São Leopoldo é um município colonizado primariamente por alemães. Por mais que hoje seja uma cidade universitária, ainda é consideravelmente fechada e “clássica”. E eu uso clássica não de forma elogiosa, mas crítica. Existem bairros, como esse onde a casa de Adelaide - alugada com muito esforço - está situada, que são muito antigos e, desde os últimos, sei lá, 30 anos, considerados nobres. E é aí que todos os problemas da nossa protagonista começam. 
   A memória do povo brasileiro é curta, e isso não é novidade nenhuma, mas fica mais curta ainda quando novos ricos (de novo, sendo irônica, uma vez que o máximo que podemos classificar as pessoas em questão é “classe média alta”) reformam ou, mais comumente nesse caso específico, derrubam casas antigas e constroem moradias modernas, de dois ou mais andares, com piscina, espaço de garagem para três carros, placas de energia solar nos telhados e quartos extras para o ego.  De repente um bairro habitacional como qualquer outro vira um clubinho onde o mais importante é quem tem as paredes mais bem pintadas e o jardim idealizado pelo melhor paisagista da região. 
   Foi assim que Adelaide sentiu a primeira ameaça, ainda velada na época. Comentários maldosos. E com o  passar dos dias o burburinho aumentou. Foi se espalhando boatos entre o grupo de pessoas responsáveis pelo bairro (com licença, mas é muito bairro de gente rica entediada ter isso né? bairro de gente pobre que trabalha o dia todo não tem tempo nem ânimo para se organizar num fim de semana para discutir como organizar rolêzinho de festa junina dos migos. Gente ocupada e comum tem que limpar a casa no fim de semana, tarefa que não conseguiu fazer durante a semana porque trabalhava). A coisa ficou feia quando começaram a dizer que iam dar parte dela por “maus tratos”, que os cachorros sofriam, eram mal cuidados e estavam morrendo de fome. 
   O mais curioso e “tragicômico” dessa ameaça é que, quando entrei naquela casa na sexta-feira do dia 21 de junho, a primeira característica que notei nos animais era que estavam gordos. Literalmente gordos. Alguns até demais - exatamente como a minha velhinha Lilica que só come e dorme atualmente. Não fazia sentido nenhum. Como assim queriam denunciar aquela casa de abrigo privada (já que a dona sozinha recolhia e cuidava dos animais) por abuso? Por tratar mal os cachorros? Eis que Adelaide me explicou enquanto me levava para os fundos olhar os outros cães. Que por sinal eram muitos, mais do que a quantidade que havia ido nos receber no portão.
   O caso é que ela quebrava o padrão nobre do bairro. 
   Eu não estou nem usando palavras minhas. Ou dela. Essas palavras vieram da boca de uma vizinha, uma das autoras das ameaças. A mesma pessoa disse inclusive que era inadmissível que no Cristo Rei, um bairro N-O-B-R-E, ela mantenha aquele ambiente, com tapetes secando no portão e aquele brechó - que ela mantém com itens doados para vender e conseguir dinheiro para comprar ração e medicamentos. A ideia principal era expulsá-la do bairro porque ali não cabia essa quantidade de cachorros latindo e a aparência pobre do lugar. Eu não sei vocês, mas nessa hora, ouvindo esse relato, sinceramente achei que as madames estavam assistindo demasiados seriados de senhoras ricas nos subúrbios americanos. E antes que venha algum senhor desocupado caracterizar isso exclusivamente nas mulheres e suas picuinhas, não são apenas as mulheres. Mulheres e esposos estão se ocupando de fazer a vida dessa cuidadora um inferno de forma igual.
   Dias antes da minha visita, me contou a dona da casa, passara horas na delegacia, prestando queixa por violência e ameaça. O que aconteceu foi que as intimidações saíram do verbal e foram para as ações. Quando ela chegou em casa depois de um dia de trabalho - Adelaide mantém três empregos para sustentar a qualidade de vida dos animais. De dia faz limpeza e de noite é cozinheira - os cachorros estavam nervosos, havia sangue em frente a casa e um dos cachorros maiores estava com boa parte da lateral da cabeça aberta por uma pedrada. Nesses mesmos dias ela ouviu de alguns vizinhos que se ela não saísse por bem do bairro “deles”, iam começar a alimentar os animais com veneno. 

   Vi o cachorro em questão quando sai para o pátio dos fundos. Ele estava isolado na parte mais afastada do pátio, para poder se curar. Também enquanto tentava fotografar os cãezinhos maiores, que pulavam em mim totalmente dóceis e dificultavam o processo, vi outros dois ambientes fechados, com almofadas e conforto onde mais bichinhos passavam a noite. Nessa parte a cuidadora informou-me que todos estavam castrados e saudáveis, prontos para serem adotados, e apenas uma filhote recém resgatada, isolada em outro cômodo, ainda era muito pequena para a castração e estava fora da possibilidade de adoção. Enquanto isso a outra moça, aquela que nos recebeu, informava minha mãe na cozinha que consegue lenha para o fogão a lenha (tanto para fazer a comida como para manter os animaizinhos aquecidos no inverno) no serviço dela, numa fábrica que trabalha com madeira. Que se não fosse isso os gastos de Adelaide aumentariam muito.
   Conheci também as “senhorinhas dog”, cadelinhas velhinhas demais e que a anfitriã afirmou que não pretendia apresentar para adoção porque, segundo ela, não poderia afirmar que seriam bem cuidadas, pois precisam de atenção especial. Uma delas uma pintcher idosa, já com pelo esbranquiçado e cega de ambos os olhos; outra com o maxilar deformado - por um acidente no passado, antes de ser acolhida, que regenerou mal -, que até se alimenta normalmente mas que as pessoas não gostam de olhar porque ela é “feia”.
   Enquanto eu, maravilhada, conhecia cada um dos animais daquela casa e ouvia a história daquela mulher que já havia ficado sem alimento próprio para dar de comer para aqueles bichos, também mais minha indignação com a maldade e mesquinharia humana aumentavam. Estão ameaçando Adelaide, abertamente falando que podem envenenar os animais (tanto que, nervosa, a cuidadora não conseguiu trabalhar direito por vários dias, até que entrou em contato com um menino que agora fica pelas tardes na casa para ter certeza de que os bichos estejam seguros), jogando pedras na casa dela, xingando e falsamente a acusando de maus tratos, tudo para que ela saia e a harmonia de pseudo-classe alta do bairro possa ser restabelecida. Afinal, Deus me livre alguém perceber que não vivem apenas ricos naquele bairro, não é mesmo? Vai que as pessoas fiquem curiosas e passem a questionar, e talvez perceber, que nem tudo é o que parece?
   O ser humano está cada vez mais fútil, egoísta e auto-centrado. A empatia está sendo consumida e dando lugar para uma batalha de egos. E quem perde nisso? Pessoas boas, que estão preocupadas com o bem estar dos outros e dos animais, que não se preocupam com aparência, com reputação ou com popularidade, como Adelaide. 
   É inadmissível que isso aconteça, e por estar debaixo do meu nariz foi que decidi fazer esse texto. Eu posso não ser influente, conhecida ou popular, mas se eu puder escrever e expor isso para pelo menos uma quantidade de pessoas que se importam, sinto que fiz meu papel. Não posso deixar esse tipo de mesquinharia passar despercebida.
    E prestem atenção no ambiente à sua volta. Nos bairros que rodeiam sua casa, na sua cidade. Muitas vezes pessoas boas estão sendo expostas a situações como essa e todo mundo está ocupado demais para ajudar. Vamos divulgar e ajudar Adelaide a achar bons lares para seus bichinhos acolhidos, assim como mostrar que tudo que ela faz é prezar pelo bem estar desses animais, sem se preocupar com luxo ou roupas e posses, itens tão valiosos para seus vizinhos ambiciosos e vazios. 




Para ver mais fotos dos cachorros clique no link abaixo (quem sabe você se apaixone e queira adotar, hein?)
> https://photos.app.goo.gl/1LT7eXEKu5m2nDPt8




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9 comentários:

  1. Amei o artigo, me senti indo junto com vocês na visita! É revoltante que os vizinhos, que poderiam se unir e ajudar nesse trabalho voluntário, se unam para o mal, para a mesquinhez. Gente hipócrita e sem empatia.

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    1. obrigada carol! vamos fazer o possível para que isso pare de acontecer T_T

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Me doeu o coração lendo este belo,real e valioso texto. É vergonhosa as atitudes desta vizinhança metida a besta,que deveriam sim,se unir e ajudar essa senhora. Ela faz o q muitos de nós,deveríamos fazer! Faz com poucos recursos por amor;Ahhh... mas amor é coisa q o ser humano não entenda muito bem,não ache importante! Importante mesmo é ter e não ser! Que coisa mais triste é a nossa raça humana! Uma raça egoísta e que valoriza as coisas erradas, as pessoas erradas e que colocam em primeiro lugar e mais importante o que se leva nos bolsos,ao invés do que se leva no coração!

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  4. Parabéns para dona Adelaide que exemplo de ser humano. Seria tão lindo ver uma historia dessa na televisão para que possam ajudar. A ela dando um abrigo para cuidar de seus bixinhos, mas isso a tv brasileira não mostra, querem por programas desnecessários ajudar pessoas que ja tem muito. Muito triste isso. Que Deus a proteja e a vc que se dedicou a essa linda história meus parabéns. E a essa gente ordinária sem coração que vcs recebam tudo o que estão desejando a ela.

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  5. Primeiro quero te parabenizar pelo texto, que nos faz entrar na história. Agradecer por expôr essa situação que merece muita atenção e ajuda. Tem mais dados para poder divulgar? Com quem as pessoas interessadas em adotar ou ajudar podem fazer contato?

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    1. Oi, o perfil da cuidadora é https://www.facebook.com/karlaadelaide.stein.1 pode tentar entrar em contato com ela pelo inbox. Vou me informar sobre evento de adoção ou qualquer atividade q ela planeja.

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    2. Ah e obrigada! Fico feliz que tenha gostado

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    3. Gratidão, Lari!! 🙏 vou passar pro pessoal então!! 💫

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