De After a Meu Romeu - Como construir um badboy que não vá contra todos os princípios do que é certo

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(SPOILERS POR AÍ. BE AWARE)


O título provisório desse post na verdade era: A resenha que eu não queria estar escrevendo.

Sério. Foi o título que pensei inicialmente para esse texto. Mas, se formos considerar, também não tinha nos planos traçar um paralelo entre dois livros, no começo queria apenas falar sobre minha experiência lendo a série After, de Anna Todd.


Por sorte, enquanto pensava muito sobre a resenha e pouco escrevia, tropecei no livro Meu Romeu (Leisa Rayven) e ele me cedeu mais ou menos o material que eu necessitava, e que encaixava com a minha forma de pensar enquanto se tratando da construção de personagens masculinos badboys em livros YA atualmente.



Veja bem. O titulo provisório era como era porque, de fato, não queria ter que escrever o que meu instinto estava me dizendo para escrever. Normalmente escrevo quando algo me incomoda. E algo estava me tirando do sério na Série After.


Primeiro queria dizer que fui idiota em demorar a ler essa série. Fui preconceituosa sobre o fato de inicialmente ter sido uma fanfic de One Direction baseada em Harry Styles (o que é um pouco – ou muito – hipócrita da minha parte, alguém que defende loucamente produção de fãs, né?). Esse fato não tira em nada a qualidade do livro em relação ao público alvo que foi direcionado. É uma escrita simples, porem não repetitiva, nem pedante, e envolve o leitor. Por isso em si Anna Todd já estaria de parabéns – por mais que alguns argumentem que muito tenha sido obra de editores que transformaram a fanfic da autora, me nego a tirar seu crédito como idealizadora da obra. Ela criou uma realidade alternativa, não se baseando nas simples qualidades dum personagem já existente na vida real. Ela soube levar uma história com controvérsias e questões bem realistas. E isso é notável, principalmente se tratando de uma leitura jovem. After não é um clássico, não tem uma escrita impecável, mas... Ele não foi feito com esse objetivo. Então por que o criticamos como se fosse?


Por tudo isso, pelas questões TECNICAS, aplaudo Anna Todd.


Mas é o subtexto que me fode.


E é sobre isso que fiquei inicialmente dividida, antes de perceber o tipo de coisa que a gente se submete devido a certos comportamentos que estão meio que incrustados na gente por questões culturais antigas.


Eu realmente me envolvi com a história. Não quis largar até chegar mais ou menos até o meio do terceiro livro. Queria saber mais. Shippei com afinco... E é aí que o vaso entope: a gente shippou. Sério. O mundo shippou. Eu shippei. Muito. Ainda shippo, mesmo consciente do que estou/vou escrever aqui. Eu shippo #Hessa, a pesar de tudo. E temo – e odeio admitir – estar errada, bem errada nessa escolha. Mas nosso lado “romântica” é idioticamente superior à nossa autopreservação (e digo ‘nossa’ porque toda boa leitora sabe que ao lermos um livro na verdade assumimos diversas personalidades e, por páginas e mais páginas, tomamos o lugar de uma infinidade de personagens).


Àqueles que tenho no snapchat (@lari_tassi, btw), ‘cês viram minha reação ao ler o final do primeiro livro da série, certo? Para quem não viu: Eu estava indignada. E estava sendo 100% sincera quando falava que Hardin ia precisar se esforçar para me convencer de que ele valia a pena, depois do que fez. O negócio foi tão fodido que senti como uma ofensa direta pra mim. AH, VAI SE DANAR, O CARA TIRA A VIRGINDADE DELA COM UMA APOSTA. Clichê. Mas não bastasse isso, ele guarda o lençol sujo como prova pra mostrar para os amigos e tirar o dinheiro da aposta, isso tudo depois de ele já ter SUPOSTAMENTE percebido que estava caidinho de amores por ela (NAS PALAVRAS DELE, que não vou quotar porque estou com preguiça de pegar o livro na prateleira, ele diz que percebeu que tinha cometido o erro na mesma noite depois de dormir com a Tessa).


Mas não podemos subestimar Anna Todd. É aí que me refiro quando a mulher é boa no que faz. Ela consegue girar a situação e, ao final do segundo livro, nós compreendemos o Hardin sobre muitos dos seus problemas e ficamos, inclusive, com pena do personagem, torcendo para que a influência da Tessa o torne um cara melhor, e entendendo o amor que ele sente por ela – que é representado na maioria por possessividade – mesmo que ele seja diferente.


Ele é um badboy. Ele é possessivo, meio machista, faz a mocinha sofrer. Tá.


E a autora, com a sutileza de uma formiguinha vermelhinha (daquelas minúsculas que ardem pra caralho quando picam a gente), insere no segundo livro trechos com o POV (point of view – escrito em primeira pessoa) do Hardin, fugindo a regra do primeiro volume, que se mantinha no POV da Tessa, fazendo com que, vendo a visão dele, nós nos solidarizemos com suas atitudes.


E. DÁ. CERTO.


Dá fucking certo.


E isso que me consome. Porque ela é genial. Mas ao mesmo tempo é tão errado.


E por que é tão errado?


Porque o Hardin não é um badboy comum. Hardin é abusivo, principalmente psicologicamente, mas também fisicamente; é grosso; bebe e ofende Tessa gratuitamente; suprime a vida social da namorada ao circulo de amigos que ele possui, mesmo depois de tudo que aconteceu; transforma seus problemas de inferioridade como uma justificativa para proibir que ela interaja com qualquer outro homem (inicialmente até com o melhor amigo dela, que é seu meio irmão e tem uma fucking namorada pelo qual é apaixonado a anos); constantemente joga na cara fatores como “o emprego que você conseguiu graças a meu pai” ou “esse apartamento é meu, você só mora aqui”; É violento e –como muito frisado em trechos do livro – tem problemas de autocontrole.


E o mais curioso? O fato de que, nas diversas vezes que vemos as pessoas questionarem sobre a violência que parte dele, ela – até pra si mesma – tecer comentários como “eu sei, mas ele nunca me machucaria”. Aí ele duas vezes machuca ela no meio de uma briga. Acidentalmente, mas enfim.


Isso tudo, todo esse comportamento abusivo, totalmente trigger para qualquer pessoa que tenha passado por isso e mil vezes pior do que muitos casos, é embriagado pelas declarações de amor ou ações que – pela narração em primeira pessoa pelos olhos de Tessa e influenciadas por seu modo de pensar – nos fazem esquecer dos momentos ruins, que são maioria.

E eu quero mencionar que AMO primeira pessoa do singular. EU escrevo artigos, escrevi meu TCC, em primeira pessoa. Acho que é a melhor forma de repassar sentimentos e perspectivas. E Anna Todd usa disso para apelar à nossa compreensão. Mostrando a visão nublada por sentimentos de Tessa ao observar as atitudes abusivas do namorado, e a perspectiva cheia de dor e magoa que justifica as ações horrendas de Hardin ao embarcarmos em suas narrativas em primeira pessoa por dentro de sua mente.


Mas a questão é: todos nós temos problemas fodidos. SÉRIO. Alguns mais que outros, com problemas maiores. O personagem masculino de Todd tem uma bagagem de traumas muito pesada. Mas isso justifica ele ser um merda de um ser humano abusivo? Explica seu comportamento. Sim. Mas não justifica. Não justifica ele no passado ter feito na Inglaterra com três meninas diferentes o que fez com Tessa, sendo que uma delas teve o vídeo íntimo vazado e, por isso, perdeu a bolsa para a universidade e foi expulsa de casa. Não justifica ele ter feito isso e não ter se arrependido. A própria Tessa percebe isso e fala que ele não parecer arrependido pelo que fez é o mais bizarro.


Claro. O livro é sobre redenção. A redenção de Hardin. Ele percebendo as merdas que fez e se redimindo. Todo mundo pode passar por isso.


Mas o frustrante é que ela precisou transformar a personagem principal em capacho para que isso acontecesse. PRECISAMOS MESMO usar a coitada como escada para poder construir um personagem principal problemático? Pisar na protagonista para que ele se recupere?


E é aí que entro em Meu Romeu, escrito por Rayven.



Ethan é um bosta. Um badboy. Ignorante. Grosso.


Mas a diferença é que ele é escrito de forma que seu comportamento não chegue aos limites do ser humano. Ele tem problemas, e por esses problemas se torna distante, com dificuldades e temores em relação a relacionamentos. É filho da puta com a principal. Ciumento demais.


Mas, em nenhum momento, nos sentimos diretamente ofendidas com as suas atitudes. Ficamos triste, chateadas, esperamos que ele não faça o que sabemos que vai fazer. Mas ele nunca bebeu e quis quebrar o apartamento a ponto dela se encolher em um canto, nem mesmo usou-a como brincadeira com seus amigos rebeldes. Ele também não a usa como tábua de salvação.


Ele é um badboy. Um personagem que nos irrita. Que é problemático. Mas que não é um completo escarro.


Por que Anna Todd precisava construir Hardin como um ser humano tão vil? E, se queria isso, precisava transformar a leitura de modo com que torçamos para o casal e achemos suas poucas atitudes românticas a coisa mais maravilhosa do mundo? Porque isso acontece. Várias vezes me peguei lendo e pensando “ah que lindo, ele fez tudo isso, mas agora tá dizendo que ama ela e...” E NÃO. ISSO TÁ ERRADO PORRA. E aí me senti num relacionamento abusivo. Que é assim que se sentem. Vendo que as atitudes do cara foram uma bosta, mas justificando com amor. Porque não sabem viver sem ele, amam ele, e....


NÃO.


A PALAVRA CHAVE AQUI É AMOR PRÓPRIO.


PRA ELA. E PRA ELE.


Se ele se amasse mais não seria um completo cuzão. E consequentemente ela não seria vítima dele.


Anna Todd construiu dois personagens fracos, mas abusou de um deles, da Tessa, de forma horrível.


E tudo bem. Tem muitos livros assim.


Mas nenhum escrito de forma que nos leve a aceitar isso, de forma que torçamos para o casal dar certo mesmo vendo tudo que aconteceu e... Bom, tudo isso está num livro cujo publico alvo é meninas adolescentes – que estão formando sua cabecinha sobre questões amorosas e como construir um relacionamento saudável – e jovens adultas.


Talvez lá nos meus  15 anos eu estivesse escrevendo essa resenha apenas com as primeiras partes. Com os elogios.


Hoje, aos meus 23, tenho consciência suficiente para assumir que mantenho esse meu lado de 15 anos, mas desenvolvi uma outra metade madura o suficiente para dizer que, por mais que ache uma boa história, isso não está certo e não deveria ser assim. Esse meu lado que divide e racionaliza está ativo.

Mas e nas adolescentes que viralizaram a história? Que compram e consomem a série? Não digo que todas sejam assim, mas é normal na idade nos levarmos por paixão, amor, e termos um conhecimento mais raso de diversos temas, alguns deles sendo relacionamentos e igualdade de gêneros.

Então não. Não consigo escrever uma critica positiva sobre a série After, não depois de ler incontáveis romances com personagens Badboys onde, assim como Meu Romeu, nenhum deles necessariamente precisa ser um doente (sério) para ter aquele ar misterioso e/ou charme.



Não vou deixar de dizer para as pessoas lerem. Leiam. Não critiquem com pensamentos fúteis como “é de menininha”, “história idiota”, “babaca” e coisas assim. Leiam. Assimilem. Admirem e desconstruam. A história é ótima. Mas só por ser ótima para o gênero que está inserido, não quer dizer que não seja totalmente problemática. 


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2 comentários:

  1. Câmara penso igual tipo, são histórias muito parecidas e ao mesmo tempo diferentes, só li meu Romeu é minha Julieta ainda, mas vi filme After e naa hora me veio o livro na cabeça, e fico muito triste por ainda não ter filme do "meu Romeu" :/

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  2. Exatamente como você, devorei os livros até o início do terceiro. Mas não da mais. Tá MUITO abusivo, não consigo mais engolir.

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